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O sol avermelhado baixando no céu vai se escondendo às pressas atrás dos montes. Seus raios luminosos transpassam os galhos das sucupiras e se refletem nas águas do açude.
A passarada intensifica a cantoria e as galinhas cacarejando chamam suas ninhadas para o poleiro da laranjeira em flor.
Sobe um cheiro gostoso de alho refogado na banha e de fumaça de graveto no fogão de lenha da cozinha onde vovó assopra vigorosamente o tição em brasa. Ela pára e vai até a cancela. Limpa as mãos no avental de algodão cru e olha para o quintal. Confere se o vovô deu comida aos porcos. Se não falava, passava de hora e anoitecia os bichos sem trato.
Chiquinha vinha devagarzinho do rumo do paiol olhando tristemente para a avó ainda na porta da cozinha. Olharam-se em silêncio por uns segundos e Chiquinha desabou a chorar. A avó, do seu jeito meio rústico, meio mãe, quis consolar: “Pára com esta bobagem de por nome nas galinhas e vem lavar as mãos pra jantar!” Ao que a menina respondeu entre um soluço e outro: “Vou primeiro enterrar a Judite no quintal”.
Tudo começou pela manhã. Uma manhã como todas as outras. O sol esplendoroso acordava a passarada e as galinhas cacarejavam descendo dos seus poleiros com suas ninhadas.
Um cheiro gostoso de bolinho frito e de café coado saía da cozinha e invadia os cômodos do casarão. A avó limpava as mãos sujas de carvão no avental de algodão e chamava o avô para a lida no curral. Ái se não chamasse, passava de hora de tirar o leite e aí ficava tudo atrasado.
No quintal, entre o cacarejar das outras galinhas e o latido dos cães fazendo arruaça com os pintinhos, Judite comia seu farelinho sossegada junto à paineira. Alguns minutos antes o tio passou recolhendo os ovos dos ninhos.
De repente uma gritaria sem fim. Quinzinho foi o primeiro a ver. A galinha Judite estava com uma perna no cocho, as asas esganiçadas e a cabeça ensanguentada pelas mordidas fatais do animal selvagem que ao longe se ia desaparecendo no meio da poeira.
P.S. Vivi parte de minha infância passando férias na fazenda de meus avós. A morte da galinha é ficção, mas os avós, o espetáculo do sol e os cheiros na cozinha são pura saudade.
Regina Maciel, maio de 2023