O sentimento de culpa dentro da caverna de Platão

O sentimento de culpa dentro da caverna de Platão

Depois de dois meses reclusos, ela já não se lembrava de como era estar na rua.  No princípio era uma prisão domiciliar, em que o medo de estar lá fora com os infectados justificava os grilhões. Passava os dias rezando e sem ligar a TV. Aos poucos foi se acostumando. Foi se acomodando.

Acordava tarde com o sol raiando.  Quando dava na teia, acordava cedinho para dar comida aos bichos. Fazia exercícios aeróbicos e colocava a leitura em dia. O marido sempre ali por perto, ora lendo um livro, ora jogando fubá aos canários chapinha. Os filhos brincando de jogar bola no quintal o dia inteiro e só paravam para mudar de brincadeira.

As filhas resolveram brincar de fazer guisadinho, cada dia um prato novo na cozinha. Era uma beleza, todos se reuniam na mesa de jantar com a mesa posta e se regalavam com as novas receitas. Conversavam sobre assuntos amenos e agradeciam a Deus por tudo.

O seu passatempo era bordar. Aperfeiçoava cada ponto a cada dia. Não tinha pressa em acabar o bordado e estava com tempo. Mudava o padrão de cores, se não gostava desmanchava tudo e começava de novo. Dali a pouco dava início a um novo ponto, uma nova tela, como uma pintura rebuscada de matizes.

 E os dias iam passando, arrastados e preguiçosos.

Não se atrevia para os noticiários, tinha medo de quebrar o encanto. A vida idílica dentro da casa, no universo do quintal, filhos, marido, canarinho, bordado, livros, guisados, poderia ter fim a qualquer hora. Lá fora, o mundo de uns agonizava e de outros já se tinha ido. Queria preservar o seu o quanto desse.

Olhava para a rua e sabia que isso poderia acabar a qualquer momento, quando noticiassem o fim da quarentena.

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