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Aos poucos, as cadeiras brancas foram sendo ocupadas ao redor da grande mesa. Rapidamente, uma miscelânea de sons e de tons ocupa todo o espaço, e aqueles que não conseguiram um assento, de pé ficaram. Uns reclamaram por já terem ficado andando pelas salas durante as aulas; outros, ocupados com o movimento ligeiro do talher indo do prato à boca, nem se deram ao trabalho.
A sopa quente servida às 9h30 de uma manhã de verão estava apetitosa. Como sempre, ouve-se um ou outro dizendo que se fosse em casa ninguém tomaria uma sopa naquele horário.
Mas…
O tempo urge. Comer, tomar um cafezinho para fazer boca de pito e ainda dar uma tragada do lado de fora do muro, para alguns é sagrado. Em meio ao burburinho, um professor reclama de um de seus desafetos que lhe disse um palavrão e nada foi feito. Outro pergunta se é o mesmo aluno que ficou matando aula na quadra.
— Ora, que absurdo! — aos poucos, o coro dos descontentes ganha volume.
Do outro lado da mesa, a professora passa didaticamente uma receita de bolo de fubá. Insiste no modo de fazer:
— Coloque os ovos, e somente depois de batidos com o açúcar adicione sucessivamente o leite e a fubá.
— Quem vai querer comprar uma rifa para uma ação beneficente? — pergunta uma professora sorridente e generosa com as causas sociais.
O café da mesa acabou.
— Quem deixou de contribuir com o valor do café não deveria tomar o café do outro. Que vergonha! — reclama a defensora da justiça e igualdade de direitos e deveres.
— Ah, era só o que faltava, lá vem os recados da supervisão. Professor não tem sossego!
— Calma, — ponderou o veterano — a notícia pode ser boa. — E foi. Não haverá reunião na segunda-feira.
No canto da sala, entre a mesa e a janela, espremida entre um palpite entusiástico de futebol e um modelo de prova, que fora criticado pela supervisora, Dona Antônia toma um gole do cafezinho já frio. Pousa a xícara meticulosamente na mesa atoalhada. Passa a mão de levinho nas dobras da toalha. Lembra de quando derrubou caldo de feijão no diário de classe. Faz um arremedo de sorriso. Olha para o colega torcedor, que diverge do outro pelo time escalado. Olha para a professora que está em prantos, porque a prova para os alunos é no dia seguinte.
O som estridente do sinal é ouvido por todos. Lentamente, as cadeiras são esvaziadas. Há aqueles que resistem e insistem em ficar mais uns minutinhos procurando mais café ou se fechando no banheiro. Mas o dever chama. Logo o recinto está totalmente vazio.
No canto da sala, entre a mesa, agora cheia de pratos e xícaras vazias, e a janela de onde se avista um lindo pé de ipê, Dona Antônia, sozinha na grande sala, se levanta.
— A senhora ainda está merendando? Posso pegar as vasilhas depois — disse gentilmente a servente, já suada pela labuta daquela calorenta manhã de março. Sua pele de âmbar brilhava com as gotículas — mexer sopa para mais de mil alunos não é brincadeira.
— Precisa não, Maria. Estou de saída — respondeu a professora idosa.
Dona Antônia corre o olho pelas paredes, velho hábito de se inteirar dos recados. Dessa vez o sorriso saiu meio amargo, meio doce como o gosto do último café na boca.
— Vou para casa — disse ela —, saiu minha aposentadoria.
E saiu pela mesma porta pela qual um dia entrou, e por onde outro entrará para substituir seu lugar na sala dos professores, entre o canto da mesa e a janela com vista para o ipê que ela, ao longo dos anos viu crescer.
Regina Maciel em 19/09/2019