A juventude é uma festa

A juventude é uma festa

– Triiiiiiiimmmmmmmmm.

Soa estridente e demorado o sinal. Ainda não eram 11:20 da manhã e o sol já estava escaldando a extensa parte frontal da escola, com suas grandes janelas de vidro pintadas e parcialmente fechadas em quase todas as salas de aula. A ideia era impedir a entrada dos raios solares que apesar das árvores do jardim, teimavam em passar. Isso se o professor não quisesse ouvir aluno o tempo todo reclamando do reflexo no quadro-giz. E reclamavam com razão.

Com o sinal ainda tocando feito uma sirene a grande porta da entrada que permanecia totalmente fechada durante todo o dia, foi aberta até o canto pela dona Maria. De um único movimento com ambas as mãos, mecânico e certeiro, ela afastou as duas partes que se escorregaram no trilho quase imperceptível no chão. Em seguida Dona Maria saiu da direção dos estudantes, saltitando com seus pequenos passos, andando rápido para não ficar presa no meio dos alunos que não arredavam do caminho facilmente, nem para uma idosa que já passava do tempo de aposentar. Ah, essa aposentadoria que não saía!

Do estreito corredor surge uma turba barulhenta e festiva que se encontra com outro tanto de alunos que descem aos pulos pela escada que dá no primeiro pavimento. Uns rindo, outros falando, outros mal-humorados, mas todos querendo a mesma coisa: sair por aquela porta enorme de vidro da entrada do colégio e que a dona Maria acabara de abrir.

No saguão, o número se agigantava. Os rostos se juntando, se misturando e o burburinho indistinguível era incontrolável. Eram vozes, risos e até safanões amigáveis. Se empurravam, se esgueiravam e todos deslizavam para fora como uma corrente caudalosa de água saindo da cavidade estreita de um cano.

– Pessoal, não esquece de trazer o trabalho amanhã.

Falou em vão a Dona Jandira, descendo a escada, acompanhando aos apertões os alunos de sua turma. A pressa era grande e depois do sinal, era “perna pra que te quero” e “nem te ligo”. Os alunos balançavam a cabeça em sinal positivo ao ouvirem as palavras da professora no meio do rebuliço, mas o barulho do sinal ressoando era como um visgo, um chamado insistente que não podia ser ignorado. E tudo o mais que se dissesse fora da sala de aula, ficava no ar.

–  Professora Jandira, a senhora sabe o motivo de as aulas terem terminado mais cedo?

– O diretor quer conversar com os professores.

Respondeu Jandira de forma solene e misteriosa.

– É dona Jandira, o que é que vocês fizeram?

Perguntou de forma jocosa o aluno. Ao que a professora apenas deu uma risadinha sem graça, acrescentando que seriam só avisos. Seu coração já estava descompassado desde a hora que ouviu a supervisora avisar sobre a reunião. Era novata na escola. Seria uma prática da escola chamar a atenção do professor por suas inabilidades em público? O que será que fizera de errado? O coração já dava pinote.

– Pelo menos, vamos embora mais cedo. Oba! A senhora quer que eu carregue sua bolsa, dona Jandira?

– Precisa não, Luís. Obrigada.

Já no último lance da escada, a professora se despede da turma, que corre como todos os outros para a grande porta de vidro.

E a turba se lança para fora como um revoada de pássaros.  Sem preocupações e sem medos, exibindo sua arma infalível, sua juventude.

– Pessoal, vem logo para a sala de professores, o diretor já está dando avisos. Falou a supervisora, andando de um lado para o outro, procurando mais professores pelos corredores e pelo saguão.

– Bom dia, vamos entrando.

A apreensão no rosto dos colegas aumentava à medida que o falatório diminuía na sala. Cada um procurou um lugar para se sentar, outros não tiveram sorte e ficaram de pé, segurando bolsas e livros como malabaristas. Os narizes sujos de giz. Melhor que nariz de palhaço. Mas com certeza os avisos seriam poucos, então não havia motivo de se preocupar. Uma olhadinha no relógio de pulso, outra olhadinha no relógio da parede, uma olhadinha para a porta para ver se os colegas também estavam chegando. Ninguém tinha coragem de perguntar o motivo do sinal antecipado.

Depois de 3 minutos que parecia um ano, o diretor se pronunciou:

– Temos que pensar na nossa festa de professores.

Regina Maciel, 04/08/2023

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