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Apresentação
Organizando gavetas e limpando armários encontrei bem lá no fundo o meu antigo caderno de redações. O ano era 1984 e eu estudava o 1º ano de colegial, como era chamado o Ensino Médio naquele tempo.
Minha professora, Dona Zarinha cobrava que todos os alunos apresentassem uma redação semanal em sala de aula e foi assim que ela me incentivou a enveredar na arte da escrita e da leitura. Meus agradecimentos e reconhecimento a esta grande mestra.
E hoje reescrevo este conto que escrevi no auge da minha adolescência e que trata de um assunto verídico ocorrido em Lagoa da Prata.
O caminhão
Madrugada de carnaval. A cidade silenciava aos poucos. Mas ainda se podia ouvir sons distantes de festejos no centro da cidade. Dormiam muitos e quase todos os cidadãos o sono dos justos, dos tranquilos. Nem todos justos, nem todos tranquilos, mas dormiam.
Nas ruas reinava o silêncio e a escuridão. Do meu quarto de dormir podia ouvir o estalido das folhas secas quando eram pisadas pelos vultos que passavam raro e espaçadamente.
No quintal, gatos riscavam os telhados dos galinheiros incomodando as galinhas com sua magnitude felina e inquieta.
Enquanto os cidadãos dormiam o sono restaurador, a lua e as estrelas eram vigilantes e testemunhas oculares do espetáculo porvir.
E começa. Um estrondo gigantesco é ouvido. Como um cano imenso, uma estrutura de ferro suspensa por um guincho que cai sobre um monte de sucatas. Um estampido de canhão. Ou então como alguém batendo uma tampa próximo da minha cabeça e pertinho dos meus ouvidos.
Na hora exata, não pude avaliar o que seria. Levantei-me e afastei a cortina. Meu quarto dava para o jardim. Bati a mão no trinco e abri a janela em uma fração de segundos. Pela primeira vez na vida fiz algo tão repentino e rápido. Um movimento desajeitado e esquisito mesmo. Ainda bem que ninguém me viu. Minhas irmãs ainda dormiam.
Debrucei-me na janela e olhei para fora sobre as roseiras que teimavam em cobrir a vista da rua que já não estava tão escura e nem solitária como antes. Um clarão podia ser visto do lado leste e as pessoas surgiram do nada e transitavam a esmo.
Não sabia se ria, se chorava ou se ficava só olhando. A cena foi tomando forma e me lembrava um filme de Hitchcock com um requinte de suspense no ar. Resolvi fazer como todo mundo e sair para ver o que era. Já passava de 1:15 no relógio despertador do meu pai que ficava em cima da prateleira e só despertaria 5:00. E não era sonho como constatei logo, logo.
As pessoas estavam alarmadas no meio da rua. Carros passando. Gente falando alto. Não era filme, mas parecia tragédia e também comédia. Minha mãe, coitada saiu antes de todos nós lá de casa, para ver o movimento na rua. Tamanho era o susto dela que nem percebeu com que roupa vestia. Como ela, toda a vizinhança saiu. Era camisola, pijama e até baby-doll. Os comentários eram assustadores; “ah, o mundo está acabando”, dizia a minha vizinha correndo pela rua enrolada na toalha. “é no prédio do Jorge Leonel”, dizia o outro entendido, “é na Recaprata” mais outro, “é no Alto Forno”. E o clarão continuou aumentando e pipocando no céu em labaredas curtas e vermelhas.
Depois de um tempo de espetáculo medonho, alguém chegou com notícia. Todos rodearam o motorista intrépido que para lá tinha se dirigido em busca de novidades. O desejo de se informar ia além da curiosidade. Era medo.
Meus irmãos também tinham ido em direção ao clarão, impelidos pela própria curiosidade e pela minha mãe que estava muito preocupada. A luz do fim do mundo não passava de uma explosão de fogos em um caminhão estacionado em uma rua na região entre o Cantinho de Ouro e o Mandiocal. Voltamos cada um para suas casas e tentamos dormir. Meu pai já estava nervoso porque dali a pouco teria que levantar para ir para o serviço na usina e perdera o sono por causa de irresponsabilidade dos outros.
Ao amanhecer, muitos foram ver o fim da tragédia. O caminhão estava estorricado e dele nada sobrara que prestasse. O clarão misterioso e o barulho imenso que deu origem a ele foram explicados e por muitos dias não se falava em outra coisa quando um grupo de adultos se juntavam. Contaram que uma mulher morreu com o susto, pois sofria do coração. Meu tio contou que o incêndio foi causado por um curto circuito na parte elétrica quando alguém tentou roubar o carro. Pura maldade.
Na noite do dia seguinte, o meu pai acertou seu relógio branco, como em toda noite, para acordar bem cedo, como em todos os dias. O sono veio e tudo foi ficando para trás, como um filme assistido. A lua e as estrelas se postaram no mesmo lugar, observando o espetáculo.
2 Respostas
Um acontecimento que marcou a história da cidade. E você o descreveu com maestria. Parabéns, Regina!
Obrigada Marina! Seu comentário me alegra muito!